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A Casa de Poeira - 2° Capítulo


ESPERANÇA

João


JOÃO SENTIA-SE MISERÁVEL. Ele havia dirigido o dia todo para chegar a lugar nenhum. O tempo todo ouvindo a voz de sua mãe ecoando em sua cabeça: “Tome a vida do seu irmão como sua...”. Carta idiota! Por que eu iria querer ser como esse encostado? Que piada!, João pensava.

João, um homem sofisticado, jamais seria como Marcos, alguém tão… Blé!

Viagem inútil, perda de tempo! Pedido inútil de uma mente senil. Por que aceitei dirigir até onde Judas perdeu as botas, por uma causa inútil, com esse mendigo do meu lado?

João sabia o porquê, mesmo que ele nunca fosse admitir. Se ao menos ela soubesse o que estou passando nesse momento, tenho certeza de que minha mãe nunca me pediria isso.

Eles poderiam ter voado para a costa, mas não!

“A Mãe disse que devemos dirigir, não voar.” - Marcos havia dito.

Mão de vaca, não tem dinheiro pra comprar as passagens? Espero que esse vento na sua cara seja caro o suficiente! - João pensou enquanto abria o capô do seu conversível.

Cada dia longe de casa era um dia perdido para o julgamento. E para quê? Limpar vidro de para-brisa e lamentar a morte de sua mãe, o casamento acabado, e a carreira fodida, em silêncio? Em vez disso, João poderia estar trabalhando, planejando a defesa perfeita, como fez com tantos outros acusados clientes seus.

Horas se passaram e, rapidamente, a noite chegou. João estava perdido, tentando entender a escuridão da estrada a sua frente, quase sem luz, sob a pressão da agulha de combustível. Seu coração era pura tristeza.

Então ele viu o túnel, aquela estreita lacuna nas montanhas. Enquanto o Jaguar se inclinava colina abaixo, João se perguntou:

Será Esperança?

Eles entraram no túnel dirigindo lentamente e, por um momento, a escuridão tornou-se ainda mais densa. João não podia mais esquivar-se dos seus pensamentos aflitos:





A vida de João tinha ido para o brejo há três anos.

Tudo desmoronara devido a um fantasma do passado, uma sanguessuga alimentando-se dele.

Após pegar seu diploma em Direito, João, um jovem ambicioso, foi atrás dos clientes e casos mais importantes que podia. Alguém lhe disse que a justiça criminal poderia ser muito lucrativa caso você aprendesse a fechar os olhos para certas coisas; principalmente para crimes de colarinho branco. João era um estrategista brilhante, tão bom com palavras quanto com sua mente, e rapidamente fez fama.

Um dia, alguém o abordou com uma oferta: um deputado estadual havia sido acusado de peculato, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. João estava preparado, portanto, representar aquele deputado veio no melhor momento possível para alavancar de vez sua carreira.

O político era culpado, não havia dúvidas, mas prometeu pagar o que fosse necessário para sair livre, uma barganha a qual nenhuma justiça de verdade teria condições de bancar. Então João jogou o jogo: organizou suborno de oficiais e juízes do alto escalão e transformou o julgamento num teatro, quebrando todas as linhas do juramento da Ordem. Houve suborno, plantio de provas, adulteração de testemunhas, coerção do júri… tudo que se pode imaginar! A todo momento, o filho do deputado estava ao seu lado, auxiliando-o, sujando as mãos.

João ganhou o caso, claro, e o deputado saiu livre. Como recompensa, ganhou um apartamento luxuoso e dinheiro suficiente para abrir seu próprio escritório de advocacia. Isso tudo, não foi nada, porém, comparado ao preço que ele teve que pagar anos mais tarde. Um preço que ele, tampouco, tinha condições de bancar.

O deputado foi acusado novamente seis anos depois, com provas irrefutáveis, por um promotor muito mais sério e ambicioso. João ouviu pela primeira vez sobre o caso pelo noticiário, pois houve grande cobertura da mídia: drogas, armas, milícia e terrorismo doméstico. O deputado foi preso e, no dia seguinte, João recebeu a ligação do filho, pedindo pelos mesmos serviços que João havia prestado seis anos antes.

Sinto muito, mas não posso ajudá-lo desta vez.” - João respondeu ao telefone. Uma semana depois, ele recebeu uma visita surpresa desse mesmo filho do Deputado. Se a pistola que o rapaz colocou sobre a mesa não fosse intimidação suficiente, o arquivo que ele tinha em mãos seria: um pacote de provas implicando João em más condutas, seis anos antes. João era cúmplice.

Marcos ligou para ele alguns dias depois. Havia seis anos que ele não falava com o irmão, desde a overdose e, sinceramente,João não tinha a menor vontade ou interesse em quebrar o silêncio. Mesmo assim, depois de cinco ligações, atendeu, e soube, então, sobre o câncer de sua mãe. Em meio ao caos de sua vida, João não sabia o que fazer com aquela notícia.




Depois de alguns segundos dirigindo no escuro, João viu a luz no fim do túnel, não uma luz exatamente, apenas um tom diferente de preto. Eles finalmente cruzaram a lacuna e, por um momento, João sentiu novamente seu sangue correndo nas veias.

As montanhas eram como uma fortaleza, e uma cidade aguardava ao fundo do vale, uns dez quilômetros adiante. O ar esfriavaà medida que o carro descia ao nível da estrada.

“É uma cidade?” - Marcos perguntou.

“Parece ser. Graças a Deus! Te falei que acharíamos uma parada!” - João disse, aliviado.

“João, o carro acabou de chegar na reserva.”

“Momento perfeito!”

As luzes do condado eram fracas, apenas pontos amarelo-pálidos iluminando um pouco aqui e ali, enquanto o resto era coberto por escuridão.

Eles passaram por uma placa que dizia: “Esperança a 5 km.”

Havia luz no fim do túnel, afinal! Esperança era a luz. Conveniente. João poderia comer e, finalmente ligar para Victor, seu sócio, para perguntar sobre as novidades do julgamento.

O pensamento do julgamento trouxe de volta as más memórias:




Havia uma bala com o nome João cravado. Ele não tinha outra escolha senão aceitar o caso, portanto, sua mãe teria de esperar.

A espera levou dois anos, durante os quais o maníaco do filho do Deputado visitava o apartamento de João duas vezes por semana. João estava cansado das ameaças, especialmente das que envolviam Amanda, sua ex-mulher. Era bom que João mantivesse sua mãe distante: ela serviria de alvo para mais ameaças.

Amanda não sabia de nada do que estava acontecendo; pensava que aquele homem que aparecia regularmente tratava-se de somente outro cliente preocupado. Ela era advogada também, portanto, estava familiarizada com clientes desesperados e questões de confidencialidade. Amanda nunca entrou no escritório de João quando o filho do Deputado estava por perto, mas constantemente perguntava sobre o caso. Ela não conseguia entender a relação de João com eles, e sua inteligência logo fez soarem os alarmes. Era claro que algo estava acontecendo com seu marido, algo sobre o qual João jamais falaria.

O segundo julgamento implicou-o ainda mais com a família do Deputado. João fez um acordo com o Departamento de Justiça, sentenciando-o à prisão domiciliar desde que ele cooperasse com outras investigações. O caso acabara, mas não a relação entre João e a família do político.

Ele nunca aceitou qualquer pagamento, tentando distanciar-se do Deputado. Ainda assim, certa manhã, encontrou um Jaguar conversível, novo, em sua garagem, com um bilhete de agradecimento.

Quando Amanda viu o carro, surtou, e João contou-lhe tudo.

Amanda era advogada de Direitos Humanos e conhecia muito bem o Deputado. Após saber sobre a relação de João com aquele homem, ela se ausentou por meses. João estava desesperado para salvar seu casamento, e, ao mesmo tempo, cuidar de sua mãe doente, mas o Deputado ainda tinha o controle. João foi forçado a trabalhar em outros casos.

A cada duas semanas, o filho do Deputado o visitava. João alterou provas a fim de proteger aliados do político e aconselhou outros casos pequenos. Ele era frequentemente arrastado para cenas de crime para dar conselhos legais ou vê-los torturando dissidentes.

João não conseguia dormir a menos que se embriagasse. Assim, passava a maioria das noites se drogando, embriagando-se edestruindo o que restava de sua vida pessoal. Quando Amanda sumiu de repente, João entrou em um conflito: ela estaria mais segura longe dele, porém, a filha da puta havia lhe abandonado!

Ele sabia que tudo o que estava acontecendo era sua culpa. Enquanto o Deputado estava livre em sua casa de praia, aproveitando os dias de sol, João estava trancado em uma prisão física e psicológica.

Um dia, recebeu os papéis do divórcio.

Era o fundo do poço.

Após beber e usar cocaína suficiente para reanimar um cadáver, João foi atrás de Amanda para rasgar os papéis do divórcio diante dela. Ele dirigiu até o hotel em que ela estava hospedada, e a viu entrando em um táxi, toda arrumada, como quem estivesse indo a um encontro.

João seguiu-a até um restaurante onde ela se encontrou com um bonitão de sorriso malicioso. Aquilo era veneno para ocoração de João.

A filha da puta está me traindo!

A fachada do restaurante tinha uma grande janela de vidro, portanto, João podia vê-los ali de fora. Sua mente divagou com pensamentos dolorosos. Amanda e seu amante se beijando, fodendo… Os olhos de João estavam tão vermelhos quanto o sangue que escorria de suas mãos, suas próprias unhas afundando na palma de sua mão.

Até o bonitão tocar a mão de Amanda sobre a mesa.

João não conseguiu mais se conter.

Explodindo, ele correu para dentro do restaurante, derrubando tudo e todos que estavam em seu caminho, enxergando nada além de um enorme borrão vermelho. Foram necessários muitos braços para impedir João de matar o amante de Amanda.

“O que há de errado com você?” - Amanda gritou e, naquele momento, com os punhos no ar, cheios de sangue, a consciência de João voltou. Puro desastre o rodeava: mesas, pessoas, comida e sangue. Amanda ajoelhou-se sobre o vidro quebrado, segurando um único lenço no nariz do amante, enquanto as lágrimas escorriam.

O gerente gritava, outras pessoas choravam, e as sirenes ecoavam na rua.

Sem ter mais o que fazer, João fugiu.

O tal bonitão era o advogado de divórcio da Amanda, mas João descobriu isso apenas depois de receber a intimação.

Cara, que merda você fez? Arrasta essa sua carcaça para o escritório agora!” - Victor, seu sócio, gritava ao telefone.

João foi processado por Amanda, o restaurante, o porteiro e o advogado.

Naquele momento, ele contou tudo para Victor, incluindo os crimes que cometera com o Deputado.

“Meu Deus, João, você pode ir para a cadeia… Até eu posso ir para a cadeia! Meu, por quê? Cara, puta que pariu, você se fodeu, e pior de tudo, você me fodeu! Nossa firma está acabada!”

Victor era a pessoa mais calma que João conhecia, portanto, ouvir o que João ouvira ao final de sua confissão, fez com que se sentisse ainda menor. Em um dia nublado de verão, João e Victor passaram horas elaborando a estratégia para o processo. A primeira reação foi chamar o Departamento de Justiça para obter mais detalhes sobre a acusação e influenciar a seleção do júri. Tudo inutilmente. João não tinha mais amigos no Departamento de Justiça depois do caso do Deputado. No fim das contas, ele concordou em solicitar proteção à testemunha e entregar tudo que sabia sobre o Deputado e seus crimes à Polícia Federal. Era a única maneira, mas também uma grande aposta, pois se o Deputado descobrisse, ele seria um homem morto.

Ao sair do escritório de Victor naquele dia, João notou inúmeras ligações do número de sua mãe. Era Marcos, que frequentemente usava o telefone de Hera. Marcos ligou novamente quando João tentava chegar ao seu carro debaixo de uma fortetempestade. Ele atendeu, mas mal conseguia ouvir a ligação contra o barulho da chuva, dos carros e de buzinas. Já sem paciência, João gritou com o irmão:

O que você quer?”

Houve uma longa pausa, cheia de tensão, do outro lado da linha. Finalmente, Marcos disse que Hera estava morta e desligou o telefone.

O coração de João falhou naquele momento, e sua visão embaçou. Em choque, ele andou sem direção, murmurando, mal ouvindo o motorista, que quase o atropelou, buzinando e gritando:

Saia do caminho, caralho!

João parou o trânsito quando desmaiou no meio da rua. Ele acordou minutos depois, encharcado de chuva e empapado de suor, cercado por estranhos na calçada. Era muito mais do que João conseguia aguentar, e ele acabou vomitando tudo que tinha no estômago.




João ainda podia sentir o gosto de bile quando se aproximavam da cidade de Esperança.

A cidade era pequena, com a rodovia cortando-a de ponta a ponta. Havia algo naquele lugar, algo familiar, mas assustador. João sentia-se tão cansado que teve a impressão de que as luzes pálidas da cidade pulsavam lentamente, como um coração moribundo. Ainda assim, apesar do cansaço, sentiu em seus ossos que não deveria ficar ali mais do que o necessário. Eles precisariam encontrar um hotel em outro lugar.

Não havia nenhuma alternativa. João teria de atravessar aquela cidade escura de qualquer maneira.

“Estranha, né?” - Marcos comentou.

“Horrível. Vamos abastecer e correr daqui.”

Era difícil esconder a tensão em ambas as vozes.

Uma velha placa com letras riscadas anunciava: “Bem-vindo a Esperança”.

Por sorte, o primeiro prédio que eles avistaram era o de um posto de gasolina. Finalmente, eles poderiam abastecer, comer, beber e usar o banheiro. Depois disso, só precisariam de um mapa e pegar a estrada.

O posto era todo enferrujado, decadente, abandonado, parcamente iluminado por uma única lâmpada fluorescente. As duas bombas de gás não pareciam estar funcionando, e atrás delas havia um barraco sujo, com luzes apagadas e algumas janelas quebradas.

“Que merda de lugar é esse?”

João tentou as bombas enquanto Marcos, o barraco.

As bombas eram velhas, antigas Shell enferrujadas do início do século. Uma placa pendurada na mangueira, batendo contra o vento, dizia: “Sem combustível. Vem amanhã.”

João tentou mover a válvula, mas estava trancada por um cadeado velho e enorme. A mangueira estava suja, deixando as mãos de João cheias de óleo e areia.

“Você só pode estar brincando comigo. Marcos, essa porra tá trancada!” - João gritou.

De repente, João teve a impressão de que tudo emudecera, como se alguém tivesse colocado os dedos em suas orelhas, ou como entrar em uma câmara à prova de som. Não havia mais vento, grilos... nem sequer o som das batidas do seu próprio coração.

O que está acontecendo?, João pensou.

“A placa aqui diz que estão abertos.”- disse Marcos, quebrando o silêncio.

João aproximou-se do irmão e escrutinou o barraco. Eram, na verdade, dois edifícios, um, feito de chapas de metal enferrujadas, como uma garagem ou uma oficina; e o outro, em madeira e concreto armado. Havia duas janelas de vidro com as cortinas cerradas, uma delas estava quebrada, com um papelão de caixa de cereal tapando o buraco. De qualquer forma, João não podia ver dentro, pois o vidro estava coberto de sujeira. Duas placas anexadas à porta recebiam os viajantes, dizendo: “ABERTO” e “POR SERVIÇO, POR FAVOR TOQUE A CAMPAINHA”.

“Para de ser idiota, este lugar está claramente abandonado!” - João disse.

“Só há uma maneira de descobrir.” - Marcos apertou o botão.

A campainha tocou tão alto quanto um martelo atingindo suas cabeças, fazendo o barraco tremer como uma cascavel. João ficou feliz ao ver que o sino funcionava, mas seu coração se arrependeu quando tudo ficou em silêncio novamente. Os irmãos se olharam, receosos do que estava prestes a sair pela porta.

Mesmo depois de uma eternidade, ninguém respondeu.

“Eu disse, abandonado!” - João disse.

“Tento de novo.” - Marcos pediu, mas antes que pudesse tocar o botão, uma luz acendeu-se no prédio, e passos ecoaram. Parecia um enorme cavalo trotando. Só poderia ser um gigante, duzentos quilos, usando botas de cowboy pesadas ou cascos de cavalo. A criatura andou pacientemente por todo o prédio, um passo após o outro. Demorava-se uma eternidade, como se o prédio fosse um enorme galpão, ecoando os passos em paredes bem distantes. Finalmente, uma silhueta enorme formou-se atrás das cortinas na porta de vidro.

João se arrependeu de ter deixado Marcos tocar a campainha. O que mais viveria em tal tumba se não fosse um demônio gigante? Ou, pior, um ser simplório e sujo?

A silhueta continuou fazendo barulho, sacudindo seu chaveiro e arranhando a parede com as mãos imundas. De repente, muitas lâmpadas no posto de gasolina se acenderam. Era possível vê-lo em sua totalidade. Mas de nada adiantou, ainda assim, era uma merda de um posto abandonado.

A porta finalmente se abriu, e um velho, incrivelmente alto e magro apareceu, sorrindo com seus raros e esparsos dentes. Sua cabeça era careca no meio, mas seus longos cabelos grisalhos e bagunçados haviam crescido, irregularmente, em torno de suas orelhas e caiam-lhe nas costas.

A julgar pelo excesso de rugas em seu rosto e mãos, João apostaria que ele tinha pelo menos uns cem anos. Algo nele cheirava muito mal, como uma múmia suada, recém-saída de uma catacumba arenosa, mofada e ocre.

“Tão perdido?” - Perguntou o homem, numa voz rouca, mais rouca que a de Marcos, um fumante veterano. Ele parecia se divertir em ter viajantes em seu estabelecimento.

Contudo, o que mais chamava a atenção eram seus olhos de cores diferentes. Azul-acinzentado e verde-pálido. Ele era uma versão mais acabada de Erasmo Carlos, com menos dentes e cabelos.

“Boa noite, senhor. Meu nome é Dr. Rodrigues, advogado. Esse é o meu…” - João tossiu: “irmão”.

“Irmãos, é? Pensei que fossem mariquinhas.” - O velho disse.

João se sentiu incomodado com o comentário. Todo mundo confundia Marcos e João com um casal gay.

O velho apenas encarava, coçando sua barba irregular.

“Perdoe a interrupção, senhor, mas estamos sem combustível. Precisamos abastecer, diesel, e comprar alguns suprimentos. Você teria um mapa também?” - João perguntou.

“Diesel?” - O velho repetiu.

“Sim, diesel! Afinal, é um posto de gasolina, certo?” - João disse.

O velho apontou para a placa pendurada na bomba e disse:

“Ocê é um tipo burro ou é ruim de ler? Sem combustível!”

“Mas, senhor, não precisamos de muito. Levamos o que você tiver. Pagamos o dobro. O mínimo necessário para chegarmos na próxima cidade.” - João se explicou.

O velho não parecia entender o que ele dizia.

“Aceitaremos o que o senhor tiver.” - Marcos disse, tentando ajudar.

“Tu é burro? Eu não tenho porra nenhuma! Vem amanhã.”

O velho virou as costas para entrar no barraco.

“Senhor, espere! Qual a distância até a próxima cidade?” - Marcos perguntou.

O velho virou-se e coçou o rosto:

“Uns 200 ou 300 quilômetros.”

“Senhor, há algum hotel na cidade?” - Marcos perguntou.

O velho coçou o rosto novamente:

“Uma fazenda. Muitos perdidos por aqui, vice? Gilberto ajuda ocêis, é gente boa. Continuem até a encruzilhada, depois vire à direita até a estradinha de terra. Fazenda dos Touros. É só seguir as placas, vice?” O velho instruiu.

“Podemos usar seu telefone?” - Marcos perguntou.

“Não tenho.”

Antes que Marcos pudesse formular sua próxima pergunta, o velho entrou, batendo a porta do barraco em seus rostos, apagando todas as luzes do posto de gasolina, inclusive a fluorescente cintilante. Depois disso, escuridão. Como em um pesadelo. Foi como se toda aquela conversa jamais tivesse acontecido.

“Vamos encontrar esta fazenda e descansar por hoje. Tenho certeza de que amanhã a gente acha uma solução.” - Marcos disse, ensaiando algum otimismo.

“Uma porra de uma fazenda?” - João esbravejou.

Sentia-se miserável; seus nervos e ossos doíam; sua visão estava borrada e, sua mente, apática. Ele estava tão exausto que mal conseguia pensar no que fazer em seguida, apenas repetindo, mentalmente:

Por que aceitei essa bosta dessa viagem?

Os postes de luz eram extremamente velhos e mal capazes de iluminar dois metros em torno deles. Apenas a rodovia tinha postes de luz. O resto das ruas estavam escuras. As casas pareciam testes de Rorschach, morcegos gigantes e grandes vaginas desfiguradas. Era uma cidade-fantasma, sem esperança. João virou à direita na encruzilhada, e logo eles chegaram a um caminho de terra.

“Acho que estamos perdidos. Cadê a placa que o velho falou?” - João questionou.

“Bem, ele falou dessa estradinha. Acho que está tudo certo” - encorajou Marcos.

“Estamos no deserto, idiota. Tudo é um caminho sujo!”

João dirigia lentamente pelo caminho acidentado, preocupado que os buracos danificassem a suspensão do seu precioso Jaguar.

O caminho de terra parecia um buraco negro, um túnel. Até a luz do automóvel se perdia na névoa e escuridão. Era difícil entender o terreno ao redor, mas João tinha a impressão de ver arbustos e árvores, o que era impossível no meio do deserto.

Mas ele estava cansado, e poderia estar alucinando. O carro se movia automaticamente, desbravando a escuridão, chacoalhando levemente como uma mãe tentando fazer seu bebê dormir.

“Cuidado!” - Marcos gritou de repente, tomando o volante.

João freou, e o carro parou. O cheiro de borracha queimada e poeira subiu. Olhando para a frente, João viu um poste a poucos centímetros de distância.

“O que aconteceu?” - Ele perguntou.

“Você desmaiou. Você realmente não quer que eu dirija?”- Marcos ofereceu.

“Claro que não! E agora, esquerda ou direita? Não há nenhum sinal nesse poste!”

Marcos saiu e olhou em volta. Ele se inclinou na frente do carro e pegou uma placa no chão. Voltando rapidamente para o veículo, tremendo, ele disse:

“Vire à direita. A tal Fazenda dos Touros está adiante. Vi algumas luzes à distância”

A neblina parecia ficar mais fraca à medida que se aproximavam da fazenda. João podia enxergar os detalhes ao redor do carro. Havia arbustos e árvores e, logo após, um milharal cercado. João abriu a janela para deixar o frio entrar, tentando manter-se alerta. O ar trouxe odores, solo úmido e pasto, grãos e estrume.

Touros mugiam preguiçosamente em algum lugar à distância, um som suave como uma canção. Quando os irmãos chegaram ao meio do milharal, os mugidos se tornaram gritos. Altos, urgentes. Os animais claramente se incomodaram com o barulho do motor que os acordara no meio da madrugada.

“Este é o lugar” - Marcos suspirou, mas João não tinha mais energias para comentar.

Eles atravessaram o milharal e chegaram a uma porteira aberta e um pátio, iluminado por um holofote fraco. Cem metros à frente da estrada havia um casarão antigo, cercado por uma grande varanda, de onde o holofote se pendurava.

A estrada se dividia em duas, à esquerda o milharal se perdia de vista e, à direita, mais milharal e um estacionamento. Por todo lado, havia um pequeno bosque de pinheiros que ia desde o estacionamento até atrás da casa, perdendo-se na escuridão.

Tudo era vivo e acolhedor.

As árvores pareciam dançar com o vento e ao som dos animais. Era uma cena pastoril: os grilos grilavam, e coiotes uivavam. O ar era fresco, com trigo, milho e terra úmida. João relaxou com a atmosfera e até seu pescoço e ossos doeram menos.

Como poderia um lugar desses existir? Nos últimos dias eles tinham visto apenas seca e deserto e, de repente, um oásis como esse?

“Só espero que a gente não esteja incomodando” - Preocupou-se João.

Ele estacionou entre uma caminhonete antiga e um pequeno carro compacto alugado. A caminhonete devia ter uns cem anos, laranja de ferrugem, uma relíquia não funcional. O carro compacto era novo, um FIAT pequeno, com a placa da locadora pendurada no retrovisor. Havia outro visitante perdido naquele oásis.

Mesmo seguro de que os problemas da noite haviam acabado, João deixou seu Rolex no porta-luvas, por segurança.

O pavimento do estacionamento era de cascalho; um chocalho a cada passo que eles davam.

Os irmãos caminharam em direção à casa, mas assim que os sapatos importados de João tocaram as escadas da varanda, várias luzes se acenderam, e um cachorro começou a latir, freneticamente.

Toda a Fazenda estava acesa, luzes tão fortes que João mal via seu precioso Jaguar. A tensão retornou, o coração tomado pela adrenalina. João tornou-se defensivo, hostil. Os Rodrigues estavam invadindo uma propriedade privada, portanto, o fazendeiro poderia enviar os cães sobre eles se assim quisesse. João tentou encontrar uma arma ao redor, como uma pedra ou uma cadeira, e notou os móveis antigos na varanda da frente: cadeiras de palha e redes, as grandes janelas, e muitas lâmpadas penduradas. A porta dupla da frente era elegantemente esculpida em madeira, com uma porta de tela para impedir os mosquitos.

De repente, a porta se abriu violentamente, e um careca carregando uma espingarda apareceu atrás da tela mosquiteira. Ele usava um macacão jeans, sem camisa por baixo, apenas o ombro da alça direita mantendo a roupa no lugar.

O Fazendeiro apontou a espingarda de cano duplo para os visitantes. Era intimidador, porém, nem tanto, se comparado ao cachorro gigante que rosnava ao seu lado: um enorme Cão preto de olhos amarelos brilhantes, exibindo seus dentes pontudos, babando e latindo alucinadamente.

João congelou de terror. Aquela besta estava prestes a rasgar-lhes as gargantas.

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©2022 by Leo Marcorin. Da Dusty Door

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